Maio marca a consolidação da colheita de soja da safra 2025/26, com 98,3% da área já colhida e mais um recorde histórico confirmado: 180,1 milhões de toneladas, o sétimo nas últimas dez safras. Com o plantio do milho safrinha concluído, o foco agora se volta para o desenvolvimento da segunda safra em meio a um cenário climático que exige atenção: o estresse hídrico já avança em cinco Estados do Centro-Sul, e a formação de um novo El Niño no horizonte adiciona incerteza às próximas semanas, as mais críticas para o enchimento de grãos do cereal.

Do lado geopolítico, a guerra no Oriente Médio e a crise no Estreito de Ormuz seguem impactando fertilizantes, fretes e o principal mercado comprador do milho brasileiro.

Preparamos uma análise completa, cruzando os relatórios mais recentes da Conab com o panorama regional da soja e as perspectivas para a safrinha 2026. Continue a leitura!

A safra de grãos 2025/26 em números 

O mercado encerra o primeiro trimestre de 2026 com números robustos que consolidam o otimismo produtivo, apesar de ajustes pontuais causados por adversidades climáticas regionais. 

Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), em seu 8º levantamento, projeta uma nova safra recorde de grãos, totalizando 358 milhões de toneladas. O volume representa um crescimento de 1,6% sobre o ciclo anterior, mantendo a trajetória de crescimento para o país. 

No front internacional, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) manteve projeções elevadas para o Brasil em seu relatório de março, o que influencia diretamente a dinâmica dos preços e a competitividade nas exportações. 

Divergências na soja e no milho 

Para a soja, o USDA estima uma produção brasileira de 186 milhões de toneladas, mantendo-se em um cenário levemente mais otimista que a Conab, que projeta 180,1 milhões de toneladas

Essa proximidade nos números traz maior previsibilidade ao mercado global, que já precifica uma oferta recorde vinda do Brasil, mantendo os prêmios de exportação sob observação.

Projeções da Conab para a safra 2025/26 de soja.

No milho, a diferença entre essas projeções segue pequena. 

Enquanto a Conab prevê uma colheita total de 140,1 milhões de toneladas, o USDA trabalha com um número mais conservador, de 139 milhões de toneladas

Projeções da Conab para a safra de milho.

O fator China e EUA 

Outro ponto de atenção trazido pelo USDA é a produtividade recorde do milho nos Estados Unidos, que projeta os estoques norte-americanos para 49,7 milhões de toneladas de milho com a redução do consumo interno e das exportações. 

Somado a isso, a China alcançou uma produção histórica de 305 milhões de toneladas de milho. 

Para o produtor brasileiro, isso sinaliza um mercado internacional mais abastecido e competitivo, exigindo estratégia na comercialização para defender as margens diante da pressão nos preços das commodities. 

A safra de soja 2025/26 e a realidade dos principais Estados produtores 

A safra de soja 2025/26 está em fase de fechamento. Confira o “farol” da colheita nos principais Estados:

Estádio das lavouras em maio, segundo a Conab.

Mato Grosso 

No Mato Grosso, a colheita foi finalizada. Os resultados ficaram ligeiramente abaixo do recorde de produtividade registrado na safra anterior, mas seguem em patamar elevado, confirmando o peso do Estado na produção nacional. O Mato Grosso responde por mais de 25% da área cultivada no país nesta temporada. 

Paraná 

No Paraná, a colheita da safrafoi finalizada no início de maio. A produtividade obtida superou a da safra passada, estimada em 3.755 kg/ha, e o Estado projeta produção recorde de 21,6 milhões de toneladas.  

Permanecem em campo apenas áreas semeadas com soja após a colheita de milho e feijão de primeira safra, com a maioria já em maturação e colheita iniciada pontualmente. A umidade persistente nesse período favoreceu o enchimento de grãos dessas lavouras.  

A área cultivada com a oleaginosa foi revisada para 5.738,7 mil hectares neste levantamento, após atualização dos mapeamentos da Conab. 

Bahia 

No oeste baiano, a colheita avança em ritmo acelerado, com previsão de conclusão neste mês de maio. As lavouras de sequeiro apresentam desempenho superior, favorecidas pela boa distribuição das chuvas e pela menor incidência de pragas.  

As lavouras irrigadas registram produtividade ligeiramente abaixo do esperado, atribuída à alta nebulosidade em dezembro e à antecipação da colheita para viabilizar o plantio subsequente de algodão. 

produtividade média está estimada em 4.080 kg/ha, a maior entre todos os Estados produtores do país nesta safra, referência já alcançada em cinco das últimas dez colheitas. 

Mato Grosso do Sul 

No Mato Grosso do Sul a colheita foi finalizada no final de abril, com a redução das precipitações favorecendo o andamento operacional. O período mais intenso da colheita concentrou-se entre o final de fevereiro e a primeira quinzena de março, aproveitando as condições mais secas observadas a partir de então.  

O encerramento da safra no Estado ocorreu em cenário mais favorável do que o da temporada anterior, com impactos pontuais de produtividade associados a condições climáticas adversas em determinadas regiões. 

Rio Grande do Sul 

O Estado gaúcho vive momentos decisivos. A colheita atingiu 78% da área cultivada no início de maio, com o montante restante distribuído entre lavouras em fase final de maturação e enchimento de grãos.  

O ciclo foi marcado por chuvas irregulares e temperaturas elevadas que se estenderam até março, resultando em um avanço heterogêneo entre as regiões.   

produtividade média estadual está mantida em 2.769 kg/ha, com surpresas pontuais positivas em algumas localidades que revisaram estimativas para cima. 

Goiás 

Em Goiás, a colheita foi encerrada na última semana de abril, beneficiada pela escassez de chuvas que favoreceu o ritmo operacional. As lavouras de ciclo médio e tardio foram bem atendidas pelo regime hídrico, mesmo que irregular.  

Na reta final, o que se observou foram cargas mais leves, com baixo peso específico dos grãos em algumas regiões. A produtividade média foi ajustada para 3.910 kg/ha, reflexo do desempenho das áreas remanescentes afetadas por ataques de nematoides e pelo excesso de dias nublados durante a fase reprodutiva, com perdas concentradas nas regiões sul, norte e leste do Estado. 

Minas Gerais 

A colheita mineira foi finalizada no início de maio. As operações de campo, porém, foram dificultadas pelo excesso de umidade no solo entre fevereiro e março, com formação de lâminas d’água em algumas lavouras que inviabilizaram pulverizações e colheitas pontuais.  

Mesmo assim, as plantas responderam bem à disponibilidade hídrica e à evolução tecnológica adotada pelos agricultores, resultando em produção estimada de 9.158,8 mil toneladas, apenas 0,3% abaixo da safra anterior. 

Tocantins, Maranhão e Piauí 

  • Tocantins: colheita encerrada ao final de abril, favorecida pela redução das chuvas. A safra é considerada mediana pelos produtores, com produtividade estimada em 3.642 kg/ha, impactada pela baixa população de plantas no estabelecimento inicial e pelo excesso de dias nublados durante o enchimento de grãos. 
  • Maranhão: colheita em 68% da área semeada ao final de abril, com conclusão prevista até junho. O avanço mais lento reflete o atraso de plantio causado pela irregularidade das chuvas em outubro e novembro de 2025. A área estimada para a safra é de 1.549,8 mil hectares, crescimento de 7,9% sobre a temporada anterior. 
  • Piauí: colheita próxima da finalização, com 98% da área semeada concluída no início de maio. As produtividades superaram as estimativas iniciais e os resultados da safra passada, reflexo das boas condições climáticas e do nível tecnológico dos produtores. 

Outros Estados  

  • Pará: polos de Redenção e BR-163 com colheita encerrada; Paragominas e Santarém ainda em operação, com conclusão prevista para meados de maio. As condições climáticas ao longo do ciclo favoreceram produtividades acima da média, e o Estado deve alcançar novo recorde de produtividade na safra. 
  • Santa Catarina: colheita da safra principal avançada em todas as regiões, com produtividade média de 3.815 kg/ha. Status fitossanitário adequado, com baixa incidência de pragas e doenças. 
  • Rondônia: colheita finalizada, com produtividades superiores às estimativas iniciais. 

Milho verão e o alerta fitossanitário para a safrinha 

milho de primeira safra (verão) teve produção estimada em 28,5 milhões de toneladas segundo o 8º Levantamento da Conab (maio/2026), com crescimento de 14,1% em relação à safra anterior e área estimada em 4,1 milhões de hectares

A colheita está avançada no Sul, mas os riscos fitossanitários, como a pressão de cigarrinha e lagartas, exigem monitoramento constante para evitar a migração dessas ameaças para a safrinha. 

Situação das lavouras de verão 

  • Rio Grande do Sul: colheita avança, mas as perdas por seca no início do ano foram irreversíveis em diversas regiões, afetando o rendimento médio estadual. 
  • Minas Gerais e Goiás: apesar de atrasos no plantio, as chuvas de dezembro favoreceram a recuperação. Em MG, o clima úmido dificultou o manejo e aumentou a incidência de lagarta-do-cartucho
  • Paraná: com a colheita praticamente encerrada, o Estado encerra a safra de verão com bons indicadores de qualidade. 

Milho safrinha 2026: corrida contra o tempo 

A safrinha é o coração da produção de milho no Brasil. Para 2026, a Conab estima 108,5 milhões de toneladas na segunda safra, com área de 17,8 milhões de hectares.  

O plantio nacional seguiu um ritmo mais lento do que na temporada anterior na maioria dos Estados. As exceções foram Minas Gerais, Maranhão e Mato Grosso, que avançaram em ritmo mais acelerado. 

Com o plantio agora concluído no início de maio e o desafio agora é climático: o estresse hídrico já é realidade no Paraná, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e São Paulo, com o Paraná registrando a situação mais crítica entre os Estados produtores. 

Janela de plantio 

A colheita acelerada da soja em Mato Grosso permitiu que o milho fosse plantado dentro da janela ideal na maior parte do Estado. No Paraná e em Mato Grosso do Sul, a cautela persiste para as áreas plantadas fora do período preferencial: o florescimento e o enchimento de grãos coincidem agora com o período de maior restrição hídrica, elevando o risco de perdas nas regiões mais afetadas pela seca. 

Segundo a Embrapa Milho e Sorgo, o estresse hídrico no embonecamento pode cortar entre 40% e 50% da produtividade da safrinha quando coincide com a emissão do pendão e a polinização, o que torna o monitoramento das próximas semanas decisivo. 

Clima: El Niño no horizonte 

A atenção se volta agora para a formação de um novo El Niño para a safra verão 2026/27.  

Efeitos do El Niño no Brasil

O Inmet projeta chuvas até 50 mm abaixo da média no Centro-Oeste e temperaturas acima do normal entre maio e julho, período crítico para o enchimento de grãos da safrinha.  

A partir de junho, os estoques de água no solo devem cair abaixo de 30% em Mato Grosso, Goiás e norte do Mato Grosso do Sul. 

Custo e margem 

Com a entrada da safra de verão nos silos e estoques de passagem pressionando o mercado físico, o Indicador Esalq/B3 (Campinas-SP) fechou abril cotado abaixo dos R$ 60 por saca de 60 kg.

Preço do milho
Fonte: Cepea.

Em maio, o indicador opera em queda na maioria das praças brasileiras, pressionado pela colheita robusta da safra de verão e pelos estoques da temporada 2024/25. Sul e Centro-Oeste operam abaixo de São Paulo, em razão da pressão regional da colheita e dos custos de frete.  

O estresse hídrico em cinco Estados do Centro-Sul funciona como contrapeso e impede uma queda mais intensa. Caso a Conab confirme quebra na segunda safra, o cenário tende a se inverter rapidamente, abrindo janela de reação entre junho e julho para quem tem capacidade de armazenagem própria. 

Geopolítica: os reflexos da Guerra no Oriente Médio 

A escalada do conflito no Oriente Médio, marcada por novos ataques coordenados e a morte do aiatolá Ali Khamenei no final de fevereiro, trouxe impactos imediatos ao agronegócio brasileiro.  

A volatilidade cambial e a alta nos preços do petróleo elevam o custo do diesel, pressionando diretamente o frete, que pode representar até 30% do custo logístico de grãos. 

Outro ponto de vulnerabilidade é a importação de insumos. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza, sendo que aproximadamente 15% dos nitrogenados têm origem no Oriente Médio.  

A instabilidade e o fechamento temporário do Estreito de Ormuz elevaram o preço da ureia, voltando ao patamar de US$ 500 por tonelada.A situação permanece em negociação, sem resolução definitiva até o momento, mantendo pressão sobre as rotas e os custos logísticos globais 

No front comercial, o Irã é o elo mais sensível para o cereal brasileiro. Em 2025, o país foi o principal destino das nossas exportações de milho, absorvendo 22% do volume total (cerca de 9 milhões de toneladas). 

 Qualquer disrupção prolongada nessas rotas marítimas pode forçar o redirecionamento dessa oferta para o mercado interno, intensificando a pressão sobre os preços domésticos. 

Expectativas positivas para a safra de soja 2025/26, mas cenário da safrinha exige cautela 

A safra 2025/26 confirma o Brasil como potência agrícola global, com produção recorde de soja estimada em 186 milhões de toneladas. No entanto, para o milho safrinha, o sucesso da uma colheita depende agora do clima e de uma gestão financeira afiada para lidar com o cenário geopolítico instável 

O produtor que priorizar a eficiência operacional, protegendo o potencial produtivo contra pragas e monitorando as janelas de mercado, estará melhor posicionado para defender suas margens. 

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